Uma pesquisa colaborativa entre a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp/USP) e a Escola de Medicina do Norte de Ontário (NOSM University), no Canadá, apresenta novas perspectivas clínicas sobre o câncer de pênis.
O estudo investigou os fatores que impactam a sobrevida de pacientes submetidos a tratamento cirúrgico, buscando reorientar condutas de vigilância e preservação de órgãos.
O câncer de pênis é uma doença rara globalmente, mas com alta agressividade e elevada incidência em países em desenvolvimento. De acordo com a UFU, a condição concentra determinantes clínicos e sociais que fundamentam sua gravidade.
Fatores como falta de higiene íntima, infecção por HPV e tabagismo, somados ao atraso no diagnóstico no Brasil, levam muitos pacientes a hospitais com lesões em estágios avançados.
Alex Resende Allig, estudante de Medicina da UFU e um dos autores do estudo, contextualiza: “Isso faz com que um tumor potencialmente controlável se torne, na prática, uma condição de grande impacto mutilador, funcional e prognóstico”.
Para compreender o comportamento da doença, os pesquisadores analisaram uma série histórica de 12 anos de pacientes tratados cirurgicamente no Icesp. Modelos estatísticos avançados foram utilizados para avaliar as características das células do tumor e diferentes estratégias cirúrgicas.
A principal descoberta altera o peso dos critérios tradicionais de risco: os dados demonstraram que a recorrência tumoral é o fator que mais contribui para a mortalidade e para a piora nas chances gerais de sobrevivência.
Na prática médica, essa constatação modifica o foco da urgência clínica e do acompanhamento oncológico. A literatura médica historicamente concentrava a atenção no tamanho inicial da lesão ou na extensão cirúrgica.
Contudo, o novo estudo revela que a dinâmica biológica pós-tratamento exige atenção redobrada. Allig pontua: “O paciente não pode ser avaliado somente pelo que o tumor era no momento da cirurgia; é preciso considerar o que ele se torna ao longo do seguimento”.
Essa descoberta, segundo a UFU, fortalece a necessidade de uma vigilância individualizada e intervenções precoces em casos de falha terapêutica.
Outro achado da pesquisa refere-se à segurança das cirurgias preservadoras. O estudo comprova que, desde que haja margens cirúrgicas negativas e a garantia de que a doença não atingiu os gânglios, é possível tratar o câncer sem retirar mais tecido do que o estritamente necessário.
O interno da UFU destaca que a mudança na abordagem cirúrgica afeta profundamente a qualidade de vida do paciente, indo além da anatomia para resguardar a identidade corporal, a sexualidade e a reinserção social.
Para os pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), os resultados oferecem um direcionamento mais seguro e resolutivo. A pesquisa orienta que o planejamento cirúrgico não seja guiado apenas pela radicalidade do procedimento, mas pela precisão oncológica.
Além disso, ao identificar a recorrência como fator central, os protocolos de saúde pública podem adotar uma vigilância mais rigorosa para grupos de alto risco, detectando falhas no tratamento precocemente.
Colaboração Interinstitucional e Reconhecimento Internacional
A robustez da pesquisa é resultado de uma forte articulação interinstitucional. A colaboração científica teve início por meio da interlocução com Adel Jorge El Rassi, ex-residente de Urologia da UFU e fellow no Icesp/USP.
Ele atuou como uma ponte entre a universidade mineira e um dos mais prestigiados centros oncológicos da América Latina. O projeto ganhou dimensão internacional com a integração de Caio Vinícius Suartz, pesquisador da USP e chefe de serviço na universidade canadense NOSM.
Como reconhecimento de sua qualidade analítica e relevância metodológica, o estudo foi aprovado para apresentação na Reunião Anual da Associação Americana de Urologia (AUA) 2026, em Washington (EUA).
Este evento é reconhecido como o principal e mais competitivo congresso de urologia do mundo. A apresentação do trabalho, realizada no dia 15 de maio, destaca a produção científica da universidade em uma vitrine global de excelência.
O estudante Allig conclui: “Representa a entrada legítima da UFU em um palco de competição científica máxima, onde a visibilidade não é concedida por geografia, mas conquistada por consistência, relevância e qualidade metodológica”.
Com a validação internacional do estudo, o impacto das descobertas ultrapassa o ambiente acadêmico e aponta para um futuro de condutas médicas mais humanas e precisas.
Ao entregar à sociedade e ao sistema público de saúde diretrizes baseadas em evidências sólidas, a pesquisa reafirma o papel estratégico das instituições públicas brasileiras na produção de ciência de ponta.
O trabalho demonstra que o conhecimento construído de forma colaborativa entre instituições no Brasil tem força para transformar o cuidado de pacientes oncológicos em escala global.
