Foto: Rodney Costa/ O Tempo
unnamed-file-38

Nove em cada dez cidades brasileiras enfrentam desastres climáticos nos últimos 30 anos

Advertisement

Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros revelou que 91,5% dos 5.570 municípios do país registraram ao menos um desastre climático entre 1991 e 2024. A análise, que examinou cerca de 60 mil registros de eventos como inundações, deslizamentos, tempestades e secas, aponta para a ampla disseminação e frequência de eventos climáticos extremos em todo o território nacional, com impactos sociais e econômicos significativos.

O Nordeste é a região com o maior número de cidades afetadas, totalizando 1.765, seguido pelo Sudeste com 1.405. O Sul registrou 1.152 municípios impactados, enquanto o Norte e o Centro-Oeste tiveram 433 e 342, respectivamente. O levantamento também destaca a sobreposição de riscos, com 1.814 cidades enfrentando três tipos de desastres e 270 sofrendo com os quatro problemas analisados no período.

De acordo com informações do jornal O Tempo, os 59.658 desastres naturais analisados foram responsáveis por, no mínimo, 4.774 mortes e 3.031 desaparecidos. Além disso, mais de 129,79 milhões de pessoas foram afetadas de alguma forma. Os prejuízos econômicos decorrentes desses eventos são estimados em mais de US$ 123,89 bilhões, considerando danos materiais diretos e consequências indiretas que afetam a economia local.

A análise dos impactos por região mostra que o Sudeste concentrou o maior número de óbitos relacionados a inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos. O Sul liderou em fatalidades por tempestades, e o Nordeste, em mortes decorrentes de secas. Em termos de prejuízos financeiros, as inundações tiveram maior impacto no Sul, enquanto deslizamentos e secas afetaram mais o Nordeste, e as tempestades, o Sudeste.

Advertisement

O estudo inclui casos como o de São Sebastião (SP), que em 2023 registrou chuvas recordes que causaram ao menos 60 mortes, e a tragédia climática no Rio Grande do Sul em maio de 2024. As tempestades no estado gaúcho devastaram 471 municípios, afetaram 2,3 milhões de moradores e provocaram mais de 180 mortes, evidenciando a severidade dos eventos recentes.

Realizado por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estudo foi publicado na revista Environmental Research Letters. A publicação busca direcionar a atenção de formuladores de políticas públicas e da comunidade científica para importantes temas socioambientais.

Análise sobre os desastres

“Quisemos sair da mística de que o desastre é algo sobrenatural, que as causas vêm de forças desproporcionais. Há exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, para a maioria dos eventos, órgãos nacionais como o Cemaden emitem alertas e o poder público é informado do que pode vir a acontecer. O problema é a negligência, a falta de estrutura e até ausência de atuação”, afirma o pesquisador do Cemaden, Elton Vicente Escobar Silva.

Na avaliação do pesquisador, esses eventos deveriam ser classificados como “socionaturais”, pois sua ocorrência e impactos são influenciados pela ação humana, incluindo falhas de gestão pública. Silva também aponta que, embora o Brasil tenha avançado na geração de dados, ainda enfrenta problemas de registro e de estrutura institucional para o acompanhamento adequado, o que pode mascarar a real dimensão dos impactos.

Advertisement

Os pesquisadores alertam que os impactos reais podem ser maiores do que os registrados. Os dados utilizados são autodeclarados pelos municípios em plataformas como o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). Muitos casos podem não ser notificados, especialmente em cidades sem estrutura adequada. Segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM), cerca de 1.660 cidades não possuem Defesa Civil organizada.

Outra limitação é a falta de uma abordagem “multirrisco”, onde eventos simultâneos, como uma inundação causando um deslizamento, são registrados como um único incidente. Em resposta, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) informou que desenvolve novas versões das plataformas de dados, com lançamento previsto para este ano, para permitir o registro multirrisco e a atualização contínua das informações.

“Esse estudo faz uma análise longitudinal dos impactos dos desastres no Brasil, sendo importante para demonstrar que eles são derivados de uma crise crônica, não algo pontual. Precisamos parar de naturalizar os prejuízos econômicos. Até quando vamos investir dinheiro somente em resposta aos desastres e reconstrução, sem pensar nos mecanismos para reduzir as perdas?”, questiona o sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden e coautor do artigo.

Os cientistas reforçam a importância de que os resultados da pesquisa contribuam para a formulação de políticas públicas mais eficazes. “Buscamos fazer com que a ciência contribua para a formulação de políticas públicas. É um esforço para que os resultados cheguem à sociedade”, conclui Silva. O objetivo é focar em estratégias de prevenção e redução de perdas, em vez de apenas na recuperação após os desastres.

Advertisement

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *