Belo Horizonte implementou mudanças nos cardápios das escolas municipais, incluindo salada de frutas, ovos mexidos, sopas, caldos, feijoada, galinhada e estrogonofe. Essas alterações resultam do projeto Nossa Voz no Prato, que buscou a participação de alunos e funcionários da rede de ensino para aprimorar a alimentação escolar.
O projeto, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (SMSAN) com apoio da Secretaria Municipal de Educação (Smed), promoveu o diálogo com estudantes, familiares e profissionais da educação. O objetivo foi identificar preferências e coletar contribuições para os cardápios escolares.
A iniciativa mobilizou a comunidade escolar de 118 unidades de ensino, envolvendo estudantes, pais, responsáveis, professores, cantineiras e nutricionistas. O foco foi alinhar os cardápios às preferências dos alunos, mantendo a oferta de refeições saudáveis e adequadas às necessidades nutricionais de cada faixa etária.
As diretrizes dos programas Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e Municipal de Alimentação Escolar (Pmae) foram seguidas. O projeto demonstrou como a participação da comunidade escolar pode contribuir para a melhoria da alimentação nas unidades de ensino, conforme destacado em 21 de outubro, Dia Nacional da Alimentação nas Escolas.
Na educação infantil, a canjiquinha foi a preparação mais votada, com 98,3% dos votos. Sopas e caldos obtiveram 96,6%, ovos mexidos 77,6%, salada de frutas 55,2% e feijão enriquecido 51,7%, conforme levantamento realizado.
Para o ensino fundamental, os ovos mexidos ficaram em primeiro lugar, com 82,8% dos votos. Salada de frutas obteve 63,8%, canjiquinha 60,3%, feijão enriquecido 50% e polenta com carne moída 36,2% das preferências dos estudantes.
O levantamento também identificou preparações com menor aceitação entre os estudantes. Com base nesses resultados, itens como leite saborizado, ovos cozidos com molho, mingau de fubá e aveia, vitaminas e cremosinho foram adaptados ou substituídos nos cardápios.
De acordo com a equipe da SMSAN, a escuta da comunidade escolar é fundamental para aproximar os cardápios da realidade e das preferências dos estudantes. Esse diálogo, no entanto, precisa estar aliado ao conhecimento técnico para garantir refeições saudáveis, equilibradas, variadas e adequadas.
A união entre a escuta e a nutrição permite inovar nas preparações sem comprometer a saúde e o desenvolvimento dos estudantes. Adilana Rocha, diretora de Assistência Alimentar da SMSAN, afirmou: “O Nossa Voz no Prato confirma que a participação da comunidade escolar é uma aliada estratégica para o aprimoramento contínuo do Pmae, fortalecendo o sentimento de pertencimento. Mais do que oferecer refeições, queremos promover experiências alimentares que nutram, acolham e contribuam para a formação de hábitos saudáveis ao longo da vida”.
Participação ativa na alimentação escolar
De acordo com Elaine Salles, gerente de Articulação com a Segurança Alimentar da Smed, a participação da comunidade vai além da votação para a escolha dos pratos. Ela demonstra que as famílias reconhecem a qualidade da alimentação fornecida e reforçam esse sentimento ao participarem de espaços de diálogo nas escolas, fortalecendo a execução do Pmae.
A experiência foi bem recebida pelas instituições de ensino. Na Escola Municipal Fernando Dias Costa, a vice-diretora Maria de Lourdes Alves destacou a importância da alimentação oferecida aos estudantes, especialmente em comunidades onde algumas famílias enfrentam dificuldades para garantir o acesso regular aos alimentos.
Segundo Maria de Lourdes, nas reuniões escolares, as famílias demonstram satisfação com as refeições servidas. Os estudantes, por sua vez, têm preferências bem definidas, como estrogonofe de frango, coxa e sobrecoxa assadas, feijão tropeiro e macarrão ao alho e óleo, que estão entre os pratos mais apreciados na unidade.
Maria de Lourdes explicou que a escola segue o cardápio elaborado pelos nutricionistas da SMSAN. As cantineiras contribuem para a qualidade das refeições com experiência e criatividade no preparo da merenda, utilizando os ingredientes previstos para cada dia.
“O que faz a diferença em nossa escola é a competência das nossas cantineiras, que utilizam a criatividade e a experiência para preparar pratos cheios de sabor, sempre respeitando o cardápio estabelecido e utilizando os ingredientes previstos para cada dia, garantindo uma alimentação adequada e nutritiva aos nossos alunos”, afirmou Maria de Lourdes.
Na Escola Municipal Sebastião Guilherme de Oliveira, no Olaria, região do Barreiro, a participação no Nossa Voz no Prato também trouxe resultados. De acordo com a vice-diretora Eriele Waline Ramos, o pão à bolonhesa, uma das preparações sugeridas, passou a integrar a alimentação escolar e conquistou os estudantes.
“As crianças gostam muito. Nos dias em que o prato é servido, a participação é muito grande. Os alunos vão à cantina com entusiasmo e aproveitam esse momento com muita satisfação”, contou Eriele. Ela também destacou a delícia tropical de frutas, uma sobremesa refrescante servida nos dias mais quentes.
Para Eriele, a iniciativa tem um significado que vai além da mudança dos cardápios. Ao participar das escolhas, os estudantes percebem que suas opiniões são consideradas e passam a se sentir parte das decisões da escola. Isso desenvolve um sentimento maior de pertencimento e participação na comunidade escolar.
Além disso, o projeto proporciona aos alunos a oportunidade de experimentar preparações saborosas, escolhidas por eles mesmos. Muitas dessas preparações, segundo Eriele, não fazem parte de sua alimentação cotidiana ou nem todos têm acesso em casa.
Alimentação escolar como política pública
O Programa Municipal de Alimentação Escolar (Pmae), instituído pela Lei Municipal nº 11.198/2019 e regulamentado pelo Decreto nº 19.239/2025, segue as diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ele atende estudantes da educação infantil, do ensino fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), matriculados nas escolas municipais e parceiras de Belo Horizonte.
São oferecidas de uma a cinco refeições por dia letivo, conforme a etapa de ensino e o tempo de permanência na escola. Os cardápios são elaborados por nutricionistas da SMSAN, com prioridade para a oferta de alimentos in natura ou minimamente processados.
A elaboração considera as necessidades nutricionais de cada faixa etária, os hábitos e a cultura alimentar. Também são observados os princípios da sustentabilidade, da sazonalidade e da promoção da alimentação saudável e adequada, em conformidade com as diretrizes estabelecidas na Resolução nº 4, de 26 de fevereiro de 2026, do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Os cardápios são adaptados para atender aos estudantes com necessidades alimentares especiais, como aqueles com diabetes, doença celíaca, alergias e intolerâncias alimentares. O Pnae estabelece a destinação de no mínimo 45% dos recursos financeiros repassados pelo governo federal para a aquisição de alimentos da agricultura familiar.
Essa diretriz fortalece a integração entre as políticas públicas de alimentação e nutrição, segurança alimentar e nutricional e desenvolvimento sustentável. Ela reconhece o papel estratégico dos agricultores familiares no abastecimento alimentar e na oferta de alimentos de qualidade para os estudantes da rede pública de ensino.
O acompanhamento da execução do programa é feito por uma equipe de supervisoras de alimentação. Elas visitam regularmente as unidades escolares para monitorar o cumprimento dos cardápios e orientar as equipes quanto às boas práticas de manipulação dos alimentos, contribuindo para a oferta de refeições seguras, adequadas e de qualidade.
